Nota: o texto original foi editado. Após conversa com o autor Arthur Bobany tanto via comentários no blog como MSN, percebi que certos trechos estavam com um tom muito agressivo e alterei os mesmos. Se você realmente for ler meu texto, por favor, leia também *todos* os comentários, pois o autor expôs o lado dele também, esclarecendo a primeira impressão que tive sobre o trabalho. Não quis alterar minha opinião inicial pois caso contrário a maioria dos leitores não entenderia o que aconteceu e ficaria confuso com as explanações do autor em seus comentários.

Há dois posts atrás publiquei um texto dizendo que um novo livro nacional sobre games foi lançado no mercado, entitulado “Videogame Arte”. Adquiri meu exemplar pelo hotsite do livro, recebi em poucos dias e hoje venho publicar uma resenha sobre o mesmo. Resenha que na verdade é um desabafo e um sério aviso para os interessados na obra e os profissionais da literatura, principalmente os que foram envolvidos nesse trabalho – desde quem assinou contrato até quem divulgou notícia do lançamento do livro.

Todo o processo para adquirir o livro pelo site da 2AB foi excelente e não tenho nada a reclamar, inclusive a gentileza do Sr. Sylvio em me responder prontamente ao pedir autorização para reproduzir trechos do livro para a resenha. É uma pena que minha resenha não seja algo esperado, mas prefiro expressar minha verdadeira opinião a omitir e deixar algo assim passar.

Digo que é um desabafo pois fiquei indignado com a obra. Gosto de livros de gamedev, artes e design, e 95% das vezes faço questão de adquirir trabalhos nacionais (de gamedev), mesmo que não os tenha folheado em uma livraria. E dado o press release e foco desse novo livro, não hesitei em comprá-lo. Três áreas de meu interesse no mesmo livro!

Mas o que aconteceu? Assim que recebi o livro, abri o pacote e, como de costume, li o texto de capa/orelha, sobre o autor e folheei todas as páginas rapidamente. Enquanto folheava, a primeira coisa que pensei foi “Ué… espera um pouco, esse livro me lembra de outro. Essa diagramação não me é estranha…” E na mesma hora fui na minha estante pegar outro livro de game art: “Video Game Art”, de Nic Kelman. A diagramação de ambos os livros são muito parecidas e tal coincidência me chamou a atenção. Quando peguei o livro de Nic Kelman, na hora pensei “Caramba! Até o título dos livros são parecidos! Não é possivel.”

Coincidência? Ou talvez por eu ter sido professor por alguns anos peguei o costume de reparar se um trabalho é cópia de outro? No livro original, a diagramação é a seguinte: muitas imagens de jogos, incluindo sketches, wireframes e material de produção. Onde há textos (de direito autoral de Nic Kelman), as páginas são de fundo branco com grafia preta. Em trechos que são indicados como “Sidebar”, as páginas são de fundo preto com grafia branca. No livro de Bobany, a diagramação é idêntica, sendo que os “Sidebar” viram “Fase bônus!” e foram escritos por quatro colaboradores, a maioria da academia (a coincidência de diagramação foi porque não houve envolvimento de um diagramador, pois o autor fez esse trabalho sozinho). Mas conta com menos imagens de pré/produção. Compare nas fotos abaixo:



Achei muito difícil ser mera coincidência. Então, que tal ler o texto de autoria de Arthur Bobany? Pois é, vocês não vão acreditar. Comecei a ler e Bobany até cita diversas vezes Nic Kelman, mas o livro não possui bibliografia e não menciona nada sobre tradução do trabalho de Kelman. Acho que você não precisa ser professor (ou ter sido um) para pegar os dois livros em mãos e perceber que o em português é tradução do trabalho de Kelman. O que você faz (ou fez) na escola quando copia o trabalho de um colega? Tenta alterar a ordem dos parágrafos, usar sinônimos e coisas do tipo? Pois foi isso que percebi aqui: tradução de texto, com certas adaptações e conteúdo em ordem alterada.

No meio acadêmico, aprendi que você sempre referencia autores em trabalhos (o que não é necessariamente regra para livros) e que se você escreve várias páginas com a citação de um autor, então você está copiando o trabalho de outro, mesmo que seja tradução de outra língua. Caso “Videogame Arte” estivesse sendo avaliado por uma banca de monografia, com certeza tomaria bomba por cópia. Que eu saiba, quando uma obra é traduzida, o tradutor recebe crédito por tradução, mas o crédito de texto continua sendo para o autor original. Ou estou enganado?

Não acredita que Arthur Bobany fez isso? Então vou citar alguns exemplos, primeiro com o original de Kelman e em seguida com a versão do livro de Bobany. Note também na segunda foto acima, que possui apenas textos.

Exemplo 1: Introduction (Nic Kelman, páginas 21, 22)
“Furthermore, as we better understand the effects of interactivity on our experience of art, it will be interesting to see what we might then learn about traditional, passive art forms by comparison with games. What do the differences between the new and unique interactive medium of video games and more traditional mediums reveal about the nature of art itself? What might they tell us about why artistic endeavor and experience is so compelling, so essential to our daily lives? For example, let us assume there is a direct link between the popularity of games and their ability, granted by interactivity, to immerse us as never before in alternate realities.”

No livro de Bobany, Introdução, página 32: “Ainda mais interessante é (usando o entendimento de como a interatividade suporta e expande nossas percepções sobre os jogos) analisarmos as formas tradicionais de artes. Será que as diferenças entre esta nova arte e as outras podem ser usadas para redimensionar o que é arte? Por que as atividades artísticas são tão necessárias em nosso dia-a-dia e como acessamos a arte, mesmo sem saber? Para explicar melhor, assumiremos que existe uma ligação direta entre a qualidade e a popularidade de um jogo e a capacidade do mesmo de, por meio da interatividade, nos imergir em um mundo virtual, uma realidade alternativa.”

Exemplo 2: Level 1 – Protagonists (Nic Kelman, páginas 54, 61)
“In the successful titles “Fable” and “Knights of the Old Republic”, for example, the protagonists begin the game looking completely ordinary but may grown horns or acquire glowing eyes if they make evil choices on their path to power, or white hair and an angelic glow if they make good choices. Characters that follow this more explicit, traditional mythological model of “everyman-turned-messiah” (versus the “everyman”) are common enough within role-playing games to be almost their own subgenre (as demonstrated by the main characters from al the Final Fantasy titles), but they are also frequently seen across genres, like the stars of the earlier Oddworld platforming titles or Kratos from the action-adventure title “God of War”. The everyman protagonist takes on some of his or her most interesting dimensions, however, in the video game version of the legend (as distinct from myth, because historical people or events are the focus of legend).”

No livro de Bobany, Protagonistas, páginas 55, 57: “Jogos como Fable, Knights of the old republic e Black and white apresentam personagens que iniciam a trama com uma aparência banal, mas, dependendo das decisões e atitudes do jogador, podem ter olhos brilhantes, chifres e pele escamosa e avermelhada, ou ganharem uma aura azul, com auréolas e fachos de luz dourada. Essas mudanças estéticas dependem apenas das ações do jogador, se forem boas ou más. Esse tipo de personagem comum que se torna um messias é tão usual em títulos de RPG que praticamente apresenta seu próprio subgênero (como todos os personagens da série Final fantasy), mas são assíduos também em diversos outros títulos, como o soldado Kratos, de God of War. O protagonista mundano se apresenta de uma forma interessante nos jogos sobre lendas (diferentemente dos mitos, as lendas retratam fatos e pessoas reais).”

Exemplo 3: Level 3 – Animate: Antagonists and Allies (Nic Kelman, páginas 227, 228)
“In games, the nemesis has a very concrete manifestation in the “boss”. Bosses are unique and specialized creatures (or occasionally intelligente machines) that can mark the end of a level or narrative segment, but always mark the end of a game. (…) The narrative is not complete until the nemesis has been conquered. In mythological traditions, this formula, of course, predates film, by many millenia. What is The Iliad without Hector? What is Beowulf without Grendel or Moby-Dick without Moby-Dick? It is with reference to the specific myth of The Odyssey that we can perhaps best understand the role of the boss in games and thus the demands placed on its art and design.”

No livro de Bobany, Inimigos e Aliados, páginas 130: “Da mesma maneira que as narrativas tradicionais só se fecham após o confronto final com o nêmesis o mesmo acontece nos jogos, e o Chefe de Fase geralmente recebe o destaque merecido a seu papel primordial como obstáculo supremo ao progresso do jogador. Afinal, o que seria da Ilíada sem Heitor ou de Moby Dick sem Moby Dick? Ao compreendermos seu papel podemos entender o motivo desta figura receber um tratamento especial em sua concepção e criação dentro dos games como forma de arte.”

Exemplo 4 (e talvez o mais absurdo): Conclusion (Nic Kelman, página 308, 310)
“What is art? Does the Mona Lisa qualify? The works of Shakespeare? (…) So, when a book like this one presents as art a medium stereotypically seen as little more than violent entertainment for young boys, it is not unlikely that many people’s initial reactions will be skeptical. But if those same people look carefully at these pages and see the depth of thought and degree of talent behind the creation of games today, it’s difficult to believe that even the most hardened skeptic would not perceive the extent to which games now engage us in themes and issues that have always been central to art. (…) It’s true that the unique presence of interactivity in this medium and its early, toylike origins cloud the issue and make it hard to understand how video games might work inside our more conventional ideas of art.”

No livro de Bobany, Conclusão, páginas 173, 174: “Como definimos arte? (…) Seria arte definida pela qualidade das pinturas de Rembrandt? Pela complexidade das narrativas dos clássicos ou pela facilidade de assimilação dos personagens de Shakespeare? (…) Não há dúvidas de que muitos argumentos podem ser levantados contra a inclusão desta mídia no grupo privilegiado das grandes artes e, de fato, muitos serao aqueles que levantariam esta bandeira. Mas bastaria abrir suas mentes, analisar e refletir sobre o conteúdo das páginas deste livro e levar em consideração o trabalho dos artistas que articulam seus conhecimentos para a concepção de um game, para que, mesmo os mais radicais, se sintam inclinados a mudar de idéia. (…) Talvez seja o fato de os games terem sua origem como um passatempo e, uma brincadeira para adolescentes, que nos cause estranheza. Por isso, relutamos em aceitá-los como forma de arte institucionalizada.”

Claro que o Bobany pode ter adicionado conteúdo e escrito sua tradução-interpretação do texto de Kelman, mas isso não justifica chamar o texto de trabalho próprio. Chega até a ser um insulto para os leitores e profissionais, incluindo jornalistas que divulgaram o livro. Por quê? Porque Arthur diz que há um carência de material sobre a área e foi isso que o motivou a escrever o livro. Para mim essa afirmação de “falta de material” e “escrever meu livro” é mentir para quem quer ajudar a divulgar seu trabalho.

Insulto também, na minha opinião, com as editoras Novas Idéias e 2AB. Afinal, uma editora não é obrigada a saber se um autor está enviando material de terceiros (ou copiado em parte de terceiros), já que (na maioria das vezes) existe uma cláusula no contrato em que o autor confirma que o trabalho é de sua própria autoria. Logo, ao meu ver quem tem a culpa dessa sacanagem é o autor, que sabe o que fez, e não a editora.

E como existem várias pessoas envolvidas nessa obra, é uma situação muito chata e delicada: segundo uma entrevista com Bobany, o editor Vítor Barreto foi quem conseguiu patrocínio da AMD. Imagina que legal a AMD saber que ela apoiou um livro que possui parte do conteúdo traduzido de outro livro? E quanto aos colaboradores? E quem divulgou o trabalho, achando ser um trabalho inédito?

Fica registrado aqui meu aviso para todos: editoras tentem comprovar a autencidade e origem da obra e protejam seus direitos. Autores e futuros autores, não copiem o trabalho de outros. Façam seu próprio trabalho que é sempre melhor. Lembre-se que, mesmo que demore, atitudes incorretas quase sempre são descobertas.

E, por fim, leitores: não vou sugerir boicote à obra, mas ao menos saibam a fonte original base do texto desse livro (“Video Game Art” de Nic Kelman) e, por isso, dêem crédito a quem merece. Divulguem essa resenha. Talvez assim escritores que nos respeitem apareçam com trabalhos realmente inéditos.